Começam transmissões de rádio digital DRM em onda curta no Brasil

Iniciaram-se hoje (25/11/2020) as transmissões em caráter experimental e científico da Rádio Nacional da Amazônia no sistema digital DRM (Digital Radio Mondiale). A transmissão está sendo feita em 11.880 kHz, faixa de 25 metros.

Está sendo utilizado um transmissor de 2,5 kW desenvolvido e produzido em Porto Alegre pela BT Transmitters. Nesse primeiro momento, a potência é de apenas 1 kW. O equipamento está acoplado a uma das antenas da Rádio Nacional da Amazônia, no Parque do Rodeador, em Brasília, erguidas nos anos 70 como parte do Sistema de Radiodifusão de Alta Potência. Ajustes ainda estão sendo feitos, pois, como diz o nome, é uma transmissão experimental.

Trata-se de uma iniciativa da Universidade de Brasília (UnB) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações com o apoio da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Além de som de qualidade, o rádio digital DRM permite o envio de imagens aos receptores.

Há registros de escuta em vários pontos do Brasil, Caribe e Estados Unidos. Confira a recepção no Rio, via KiwiSDR. https://www.youtube.com/watch?app=desktop&feature=youtu.be&v=ZaRSXYi8e7A&fbclid=IwAR0OLuukedHKGjrQV9oMPZV0tIiFAHeYBEp5v5260XYuiwp2AUX3ODwm500

Reprodução permitida desde que citado o autor e o blog radiolab.blog.br.

Texto e foto de Lucio Haeser

Saiba mais conferindo nossas matérias anteriores sobre o assunto.

https://radiolab.blog.br/2020/09/11/testes-de-radio-digital-drm-em-onda-curta-sao-realizados-em-porto-alegre-pela-bt-transmitters/

https://radiolab.blog.br/2020/09/18/um-nova-era-para-o-radio-brasileiro-comeca-na-proxima-segunda-feira/

https://radiolab.blog.br/2020/09/29/transmissor-drm-em-onda-curta-chega-ao-parque-de-emissoes-da-ebc/

Antenas da Rádio Nacional da Amazônia agora também têm transmissão digital DRM

Definidos os canais do FM estendido. Confira os de Porto Alegre

FM estendido de Porto Alegre terá estas frequências: 76.7, 77.1, 77.9, 78.7, 79.1, 79.5, 80.3, 81.1, 82.5, 83.3, 84.1, 84.9, 85.7 e 86.5. Depois de sete anos do decreto da migração, são as AM dos grandes centros indo para o FM. O dial terá ampliação de 60%, passando dos 88-108 mHz para 76-108 mHz. A migração é um passo que sempre julguei errado. O investimento deveria ser no rádio digital DRM, que tem mais avanços além da qualidade de som. A TV avançou ao digital. Por que não o rádio? No entanto, tudo bem. Acho até legal que o FM permaneça analógico. Digitalização pode vir em outras faixas e serviços. Outra hora eu destrincho qual emissora ocupará cada frequência.

Permitida a reprodução desde que citado o autor e o link radiolab.blog.br

Emissoras AM saem do ar, e poucos notam. Faltou um réquiem para o canal 1120 de Porto Alegre

Sim, pra frente é que se anda, as tecnologias evoluem. O que é grande hoje, amanhã será reduzido a pó. Tudo passa. Mas também não vamos exagerar no esquecimento, não é? Quero, ainda que tardiamente, ao menos fazer o meu registro de algo grandioso que sumiu no ar há dois anos. Hoje nem tanto, mas antigamente havia pompa ao colocar uma emissora de rádio no ar. Por que a despedida é silenciosa e anônima?

Em 30 de setembro de 2018, um domingo, Porto Alegre perdia uma de suas mais tradicionais frequências de rádio. Os 1120 kHz em AM, que tanto embalaram a juventude de Porto Alegre nos anos 70 e muitos músicos locais projetou, simplesmente foram largados na estrada. Foi uma rádio muito diferente a Continental de Porto Alegre da década de 1970. Em 2018, depois de muitas mudanças, era a moribunda Rádio Rural.

Percebi a ausência do sinal da 1120 poucos dias depois, em 3 de outubro, quando iniciava longa viagem de carro. Podia ser algo passageiro, pensei. Como fiquei muito tempo distante, não pude checar se ela seguia fora do ar nas semanas seguintes.

Dezesseis dias depois, aparece a única notícia que vi registrada sobre o assunto. No dia 19 de outubro, o site coletiva.net dizia: “O Grupo RBS oficializou o fim da rádio Rural, que operava no AM 1120 e a concessão da frequência foi devolvida ao governo federal ‘”por não haver sentido estratégico em sua migração para o FM”‘, conforme explicou a empresa ao Coletiva.net”, começava o texto.  Ainda bem que alguém noticiou, mesmo sem citar a data precisa do encerramento das transmissões, mas muito mais merecia o acontecimento. A data de 30 de setembro foi anotada pelo radioescuta Mattheus Moraes e me repassada por outro, Célio Romais.

A Sociedade Rádio Emissora Continental de Porto Alegre estava no ar desde 1962, mas fez a diferença, de fato, entre 1971 e 1980, quando, sob a direção de Fernando Westphalen, o Judeu, adotou programação direcionada ao público jovem e universitário, uma novidade de enorme sucesso que marcou época no dial portoalegrense.

Na década de 1980, mudou de mãos – da Globo para a RBS – trocou de nome e programação diversas vezes e, por fim, desde 1999, era a Rádio Rural. Nos últimos anos, tocava apenas música no piloto automático e tinha como único funcionário o senhor Pedro Ferreira, encarregado de cuidar do transmissor, na Estrada do Conde, em Eldorado do Sul, município vizinho a Porto Alegre. Em uma das fotos, vê-se que o imóvel, de 3 hectares, foi a leilão. As antenas foram retiradas no segundo semestre de 2019

O mesmo seu Pedro que, no dia 27 de agosto de 1962, havia colocado a rádio no ar pela primeira vez, ainda em caráter experimental. Ou seja, este homem zelou pelo transmissor dos 1120 durante todos os 56 anos em que ele esteve ligado. Bem, houve alguns dias de 1973 em que o transmissor foi silenciado pela ditadura vigente. Alguns detalhes dessa história me foram contados por seu Pedro e estão publicados em meu livro Continental, A Rádio Rebelde de Roberto Marinho, da Editora Insular.

Ao contrário de pomposas inaugurações, o encerramento se dá no mais absoluto silêncio. Nenhuma reverência ao que se passou por ali. Nem um simples comunicado da empresa. Simplesmente, foi ao ar e desapareceu. Nem sempre foi assim. Em 1954, a primeira emissora FM do mundo, de Edwin Armstrong, em New Jersey, teve uma transmissão de despedida, vejam só.

Claro, no caso da 1120 nem precisaríamos chegar a tanto. A rádio já estava decadente há anos. Mas é o ponto final de uma história importante. Sim, sempre estamos perdendo coisas para dar lugar a novas. Mas uma geração inteira teve um carinho muito grande por aquele canal. O local físico de onde emanavam aquelas ondas ainda ostenta uma logomarca, de um período em que chamou-se apenas 1120.

Para escutar um pouco do que a Continental dos anos 70 transmitia: www.continental1120.com. O livro citado anteriormente também reúne algumas histórias interessantes, inclusive passadas nesse local. As fotos, feitas por mim em junho de 2020, mostram o prédio onde ficava o transmissor da 1120, em Eldorado do Sul.

Outra emissora de Porto Alegre sumiu do ar em setembro de 2020. A Cultura, em 840. Isso e mais informações sobre o assunto rendem outra postagem.

Texto e fotos de Lucio Haeser. Reprodução permitida desde que citado o autor e o link radilab.blog.br.

Transmissor DRM em onda curta chega ao parque de emissões da EBC

Com alguns dias de atraso em relação à expectativa inicial, o transmissor de rádio digital DRM em onda curta chegou nesta terça-feira (29/09/2020) ao Parque do Rodeador, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), em Brasília.

O equipamento foi desenvolvido e fabricado pela BT Transmitters, de Porto Alegre, e tem a potência de 2,5 kW. Estamos apurando mais informações sobre o processo de instalação. A transmissão será feita em caráter experimental e científico com o áudio da Rádio Nacional da Amazônia numa parceria da Universidade de Brasília (UnB) e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

Rádio brasileiro dá importante passo rumo ao digital na próxima segunda-feira

Transmissor de 2,5 kW em ondas curtas no sistema DRM chega ao Parque do Rodeador, em Brasília

Permitida a reprodução desde que citado o link http://www.radiolab.blog.br no início da matéria replicada.

A radiodifusão brasileira começa a entrar em uma nova era a partir da próxima segunda-feira (21/09/2020). Um transmissor de rádio digital desenvolvido e fabricado em Porto Alegre pela BT Transmitters chega ao Parque do Rodeador, em Brasília, para ser conectado a uma das enormes antenas da Rádio Nacional da Amazônia (veja foto). O equipamento é o primeiro para emissão de rádio digital fabricado no Brasil e será testado em caráter experimental e científico.

Fazem parte da iniciativa a Universidade de Brasília (UnB) e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações. Será utilizado o sistema DRM (Digital Radio Mondiale), criado por emissoras como BBC, Voice of America, Radio France, a japonesa NHK e muitas outras em todos os continentes. Portanto, é um sistema mundial, e não europeu como muitos insistem em dizer. Europeu é o DAB.

A Rádio Nacional da Amazônia transmite de Brasília especialmente para a Região Norte do Brasil. O sinal também é captado em todas as regiões e em outros países, mas o foco, como o nome diz, é a Amazônia. Lá vivem cerca de 7 milhões de ribeirinhos e indígenas que hoje estão distantes de qualquer outro meio de comunicação. As distâncias são gigantescas e em muitos locais não há cobertura de celular ou internet. O preço da internet por satélite é estratosférico. A emissão da RNA é feita no antigo sistema de ondas curtas, que atinge longas distâncias, mas isso não é problema para quem tem na Nacional da Amazônia a sua principal, e em muitos casos, única fonte de informação.

A emissora transmite desde 1977 e tem raízes sólidas. Em 2017, raios danificaram a subestação de energia que alimenta seus transmissores, tirando-a do ar por alguns meses. As reclamações chegavam aos borbotões na sede da rádio. Caciques e líderes ribeirinhos redigiram um manifesto exigindo empenho para o seu retorno ao ar. Foram tomadas soluções provisórias, com o uso de geradores para emissões só em algumas horas por dia, até que, finalmente, em 2020, o sinal foi restabelecido.

A Nacional da Amazônia, as Nacional do Rio e de Brasília e as rádios MEC são administradas pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), ligada ao governo federal. No mês passado, a EBC realizou licitação para a compra, entre outros, de dois transmissores de ondas curtas para a Amazônia, equipamentos esses que devem estar preparados para a entrada do Brasil na era do rádio digital. No caso das ondas curtas, o único sistema digital existente é o DRM.

Antes que esses transmissores sejam efetivamente comprados e entrem em operação, divulgamos em primeira mão, na semana passada, a construção do transmissor a ser testado em caráter experimental e científico, usando a antena e o áudio da Nacional da Amazônia. É preciso abrir parênteses para lembrar que a TV aberta brasileira iniciou seu processo de digitalização em 2007. Uma pergunta que deve ser feita é: por que o rádio ainda não foi digitalizado no Brasil?

O rádio digital em ondas curtas para a Amazônia seguramente vai garantir um novo patamar para as comunicações na Região Norte. A programação da Nacional é ao mesmo tempo popular e educativa. Leva informações de serviço muito importantes aos cidadãos, e não “somente” aos milhões de ribeirinhos, mas a toda a comunidade. Com a adoção do rádio digital, acabará um dos grandes problemas existentes hoje. A má qualidade de som que é observada em alguns momentos devido a condições atmosféricas que afetam a propagação dos sinais. O DRM transmite em onda curta com qualidade similar a uma emissora FM local.

Além disso, mais do que som, o novo sistema oferece a possibilidade de transmissão de imagens e texto. Ou seja, enquanto está escutando uma música, o ouvinte pode conferir as últimas manchetes, resultados do futebol, avisos de utilidade pública, previsão do tempo e qualquer outra informação que se deseje incluir. Também o DRM permite que em uma mesma frequência sejam oferecidas três ou quatro programações diferentes. Uma delas pode estar totalmente dedicada a aulas via rádio, movimento que ressurgiu em muitas emissoras Brasil afora durante a pandemia de coronavírus.

Outro aspecto relevante é a economia de energia que será obtida com a transmissão digital. Para alcançar a mesma área, é necessário menos da metade da potência exigida no sistema analógico, ou até bem menos que isso. Estudos ainda estão sendo feitos para verificar o percentual exato de economia.  

Além das ondas curtas, todas as faixas de frequência da radiodifusão são atendidas pelo DRM, inclusive emissoras de baixa potência, como as rádios comunitárias em FM.

O sistema DRM vem sendo testado e adotado em diversos países de todos os continentes. É uma opção importantíssima para a transmissão de informações sem necessidade de estar atrelado à infraestrutura de internet e sem custo para o receptor. Vai da antena do emissor direto para a antena do cidadão, de graça.

“Não coloque todos os ovos na mesma cesta.” O tradicional provérbio da economia se aplica a diversas outras áreas humanas. Uma delas é a comunicação. Os incríveis avanços que a internet trouxe nos últimos 25 anos em quase todas as atividades fazem muitos pensarem que ela é a solução para tudo. No entanto, por ser uma intrincada rede de conexões por cabos, satélites, antenas e gigantescas instalações de infraestrutura, ela apresenta alguns pontos de vulnerabilidade. Sem falar que sempre é um produto pago.

Seria inteligente abandonar um tipo de transmissão gratuito e praticamente universal? Não por apego ao passado, mas por ser uma alternativa necessária a garantir a transmissão de informações. É fundamental manter alternativas de comunicação de qualidade, evoluídas e confiáveis.

Trata-se, no momento, apenas de um teste específico para a Amazônia, região ainda grande usuária das gratuitas ondas curtas, onde o rádio comercial, a telefonia (paga) e a internet (paga) não chegam. DRM tem mais alternativas além do broadcasting. EAD é uma delas, pois, além do som, carrega imagens. É uma tecnologia promissora e que deve ser melhor considerada. Grande economia de energia é só um exemplo. Em crise sempre estivemos, a atual é a mais grave, claro, mas não é por isso que os avanços devem deixar de ser testados. Principalmente um que seja fora da internet.

Confira o vídeo com áudio do teste DRM em onda curta em https://youtu.be/Sw2oRgRaR6E

Reportagem e fotos de Lucio Haeser

É permitida a reprodução desde que citado o link http://www.radiolab.blog.br no lead da matéria replicada.

Testes de rádio digital DRM em onda curta são realizados em Porto Alegre pela BT Transmitters

A portoalegrense BT Transmitters realizou na capital gaúcha, nesta sexta-feira (11/09/20), os testes finais do primeiro transmissor digital em ondas curtas do Brasil (foto). O equipamento, no sistema Digital Radio Mondiale (DRM), tem potência de 2,5 kW e transmitirá na faixa de 25 metros. Ele será agora enviado a Brasília, para testes com o áudio da Rádio Nacional da Amazônia.

Abaixo, um pequeno trecho do áudio do teste, captado pelo microfone de um celular frente a um receptor (foto abaixo). Link para o vídeo aqui: https://youtu.be/Sw2oRgRaR6E

Em vez do áudio muitas vezes inconstante da onda curta analógica, o sistema DRM oferece som de alta qualidade e também envia imagens, como mapas do tempo, avisos, manchetes, comerciais, nome das músicas recém tocadas e outras informações. O rádio digital propicia grande economia de energia, pois os transmissores necessitam de potências bem menores para cobrirem a mesma área. O radiodifusor também tem a possibilidade de optar entre diferentes configurações de emissão, o que pode fazer o delay chegar próximo de apenas um segundo. Delay é o atraso entre a emissão e a recepção.

O transmissor DRM foi desenvolvido com finalidade de pesquisa científica pela BT Trasnmitters, que é dirigida por João Marcos Bertoldi, para uma parceria entre a Universidade de Brasília (UnB) e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações. A instalação será feita no Parque de Transmissões do Rodeador, em Brasília, onde ficam as antenas da Rádio Nacional da Amazônia, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

No mês passado, a EBC realizou pregão para compra de 10 transmissores de rádio, entre eles dois de 100 kW para a Nacional da Amazônia, que transmite em ondas curtas e tem grande audiência nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste. Para milhões de ribeirinhos e indígenas é há quatro décadas o principal meio de comunicação. Os equipamentos em OC previstos na licitação devem estar prontos para transmitir na tecnologia digital DRM.

As transmissões em DRM iniciaram em 2003, fruto de um consórcio formado por BBC, Voice of America, Deutsche Welle, Radio France Internationale, NHK, Radio Netherlands, Voice of Nigeria, entre outras, e fabricantes de transmissores e receptores. O DRM usa código aberto e pode ser modificado para se adaptar às condições de cada país. O sistema vem sendo testado e tem se desenvolvido em diversos países. A Índia é o país com maior número de emissoras DRM em ondas médias, curtas e FM.

Reportagem de Lucio Haeser para RadioLab. A reprodução é permitida desde que citada a fonte com o link http://www.radiolab.blog.br.

bt

uniwave

Receptor UniWave mostrando a recepção do teste DRM pela BT Transmitters. O display é usado para a recepção de imagens e textos.

Criação de rádio contra comunistas “alienígenas” durante a ditadura teve denúncias de corrupção

Suspeitas de corrupção rondaram órgãos do governo federal nos anos 1970, durante a implantação do Sistema de Radiodifusão em Alta Potência. A iniciativa visava combater emissoras de países com regimes de esquerda, chamadas de alienígenas pelo Serviço Nacional de Informações (SNI). Um remanescente desse projeto é a Rádio Nacional da Amazônia, que completa 43 anos hoje (01/09/2020). É o que revelam documentos obtidos com exclusividade por RadioLab.

Delfim Netto, quando ministro da Fazenda, em 1973, teria sido alertado para o problema, mas, procurado para falar sobre o assunto, disse em conversa gravada por telefone não recordar dos fatos. Cópias de alguns dos documentos lhe haviam sido enviadas com antecedência por e-mail.

Em 1973, no governo de Emílio Garrastazu Médici, o ministro Delfim assinou, com a garantia da União, o pagamento do equivalente hoje a R$ 245 milhões para o empreendimento. Por estranho que pareça, à época a Rádio Nacional era uma responsabilidade do Ministério da Fazenda, pois fazia parte da Superintendência de Empresas Incorporadas ao Patrimônio Nacional (SEIPN), criada em 1940 por Getúlio Vargas. Em 1975, mudou o nome para CEIPN (C de Coordenadoria).

Voltando a 1973, um edital da licitação internacional previa a compra de potentes transmissores de rádio em ondas médias (hoje conhecidas como AM) e ondas curtas. Pela legislação, venceria a empresa que apresentasse a proposta mais barata, a não ser que houvesse justificativa em contrário.

O resultado foi para o extremo oposto. A empresa vencedora apresentou a proposta mais cara. A suíça Brown Boveri Corporation recebeu mais de 40 milhões de francos suíços, o equivalente hoje a R$ 245 milhões. Como se isso não bastasse, os equipamentos foram apontados, já à época, como obsoletos, com tecnologia dos anos 50.

Entre as empresas participantes da licitação, a proposta mais barata, e que, segundo a lei, deveria ter sido a vencedora, era a da estadunidense Gates. Cerca de 60% menos dispendiosa. Além de ser a mais barata, tinha também tecnologia mais avançada e menor consumo de energia, como relatam os documentos.

De fato, ao longo das décadas, verificou-se grande dificuldade na manutenção do sistema de ondas curtas, principalmente na obtenção de peças de reposição da empresa suíça, que, deixou de fabricar transmissores de rádio. De um total de seis transmissores, hoje só dois operam, pois com o tempo tiveram que ser canibalizados. Ou seja, tirava-se um equipamento do ar para poder colocar algumas peças em outro.

A proposta da Brown Boveri chegou ao cúmulo de oferecer produto da Gates mais caro do que a proposta desta. Ou seja, por não dispor de um determinado transmissor, “terceirizou” a licitação à Gates e o ofereceu por US$ 155 mil, quando a Gates, em sua proposta, cobrava US$ 100 mil. A Gates enviou ofício a Delfim Netto apontando a irregularidade, mas, ao que consta, não recebeu resposta.

Então, a grande pergunta que fica é: por que a Brown Boveri venceu essa licitação? Lembrando que a empresa está presente no Brasil desde a década de 50, onde forneceu equipamentos para grandes obras públicas, inclusive os geradores da usina hidrelétrica de Itaipu, os maiores do mundo até então, cuja construção começou por aqueles anos.

Sob o governo de Ernesto Geisel, em 3 de outubro de 1975, o SNI, então chefiado pelo general Newton Cruz, arrola uma sucessão de fatos que revelam suspeitas sobre o chefe da SEIPN, que em 1973 teria atuado em conjunto com o “Grupo Abdala” em “desvio de créditos abertos pelo governo anterior” (Médici) para a compra dos transmissores suíços.

No entanto, o documento sublinha que “nada foi apurado, até o presente, em desabono à conduta do senhor (nome tarjado), coordenador das Empresas Incorporadas ao Patrimônio Nacional”. Porém, mais adiante, o mesmo informe do SNI diz que “causa espécie o súbito aumento de vencimento do Sr. (nome tarjado) coordenador da SEIPN”.

O documento lista uma série de descasos na administração da Rádio e TV Nacional de Brasília, inclusive na implantação do Sistema de Radiodifusão em Alta Potência. “A complexidade dos problemas administrativos, advindos da criação do SISTEMA DE RADIODIFUSÃO EM ALTA POTÊNCIA, aliada aos subterfúgios usados pelas Administrações da TV RNB (TV e Rádio Nacional de Brasília) e SEIPN, no afã de mostrarem sua probidade administrativa … vem propiciando uma fraca atuação dos incumbidos de processar o assunto. Esses problemas … resultaram na elaboração de informações inócuas não permitindo uma avaliação precisa dos ilícitos que realmente vinham sendo praticados”. Até onde esses documentos revelam, não houve uma investigação mais aprofundada. Se ela existiu, não tive acesso.

Em outro texto, o SNI registra que o “grupo empresarial Abdala” é um possível beneficiário em desvio de verbas destinadas à compra de transmissores. Reprodução abaixo mostra relato do SNI apontando, entre os “dados conhecidos”, que 78% do dinheiro investido teria sido desviado para o “grupo Abdala do Rio de Janeiro”. J.J. Abdalla será assunto de próxima postagem.

A Rádio Nacional da Amazônia entrou no ar no dia 1º de setembro de 1977 e, portanto, completa 43 anos de operação neste 1º de setembro de 2020. Embora o Sistema de Rádio em Alta Potência tenha se iniciado no governo do general Emílio Garrastazu Médici, a Nacional da Amazônia, com esse nome, foi criada no governo do general Ernesto Geisel.

O sistema de rádio em alta potência gestado ainda no governo Médici tinha como uma das principais finalidades enfrentar as comunicações alienígenas, como eram chamadas pelos militares as rádios de ondas curtas de países comunistas ou socialistas, a exemplo da Rádio Tirana, da Albânia, Rádio Havana, de Cuba, Rádio Moscou, da então União Soviética, e a Rádio Internacional da China. Essas transmissões eram facilmente captadas em território brasileiro com programas em português. O termo alienígena é correto, embora a conotação preponderante hoje lhe dê um tom jocoso.

As emissões em ondas curtas, hoje praticamente desconhecidas da maioria da população, embora ainda existentes, mas em número bem menor, permitem captações de rádio a milhares de quilômetros de distância. Num mundo ainda sem internet, no século passado, era um meio de comunicação eficaz para o emissor e gratuito para o receptor. Bastava possuir um aparelho com essa faixa de onda, algo bastante acessível à maioria da população e comum àquela época.

Documentos guardados no Arquivo Nacional, em Brasília, mostram sérios questionamentos ao processo de compra dos caros transmissores para o Sistema de Rádio em Alta Potência. Esses papéis têm muitos nomes tarjados, não sendo possível, por enquanto, nominar muitos dos personagens. No entanto, mesmo não podendo identificá-los, é possível começar a trazer à tona um capítulo não revelado da história do Golpe de 1964.

Há quem diga que não existia corrupção no regime militar. Muitos casos, no entanto, já foram revelados. Outros tantos devem estar ocultos. Durante a ditadura, a imprensa vivia sob censura e intimidada para o seu pleno exercício. Após o fim do regime, houve destruição de materiais, mas boa quantidade foi levada aos arquivos oficiais. E documentos estão ainda hoje sob a guarda direta dos responsáveis ou seus herdeiros, até em suas casas ou fazendas.

Mais material será publicado em breve.

Lucio Haeser, para a RadioLab, 1º de setembro de 2020.

Na mira da privatização, EBC quer novos transmissores para implantar Rádio Nacional em todo o país

A Empresa Brasil de Comunicação (EBC) realizou pregão eletrônico para a compra de 10 transmissores de rádio em FM, um em AM e dois em ondas curtas. Além de renovar os atuais parques de transmissão das rádios Nacional e MEC, estão previstas sete novas rádios FM, sendo duas no Nordeste (uma delas em São Luís-MA) e uma para cada região: Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

Além desses, há a previsão de um novo canal específico para o Rio, provavelmente uma Rádio Nacional em FM. Pode-se então especular que o outro canal do Sudeste será em São Paulo, onde já há a operação da TV Brasil, também da EBC. O total estimado a ser investido é de quase R$ 30 milhões.

O pregão eletrônico número 13/2020, realizado na última quinta-feira (13/08/20), faz parte do processo administrativo 1166, publicado originalmente em abril. Na época, o texto previa um transmissor em FM para a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, sendo que hoje a rádio opera somente no AM e não entrou com pedido de migração ao FM. Mais do que isso, chamou a atenção o fato de o canal destinado, 94,1 mHz, ser hoje ocupado pela Rádio Roquette Pinto, operada pelo estado do Rio, governado por Wilson Witzel, com quem a presidência da República tem tido relação atribulada. Na nova publicação não há definição de canal a ser utilizado.

No texto de abril, havia a previsão de três transmissores para a Região Sul (reduzido agora para um); e três para o Nordeste (reduzido para dois). No sentido contrário da diminuição de canais, houve o aumento nas potências anunciadas para os novos canais (veja tabela abaixo).

Todos os equipamentos a serem comprados deverão estar preparados para a implantação do rádio digital nos sistemas DRM ou HD Radio. Para a Rádio Nacional da Amazônia, a única que opera em ondas curtas, estão previstos dois transmissores de 100 kW. Na faixa de ondas curtas, o sistema DRM é a única opção no modo digital. A compra prevê potência de 100 kW, quando a emissora tem licença para operar com 250 kW em cada canal.

É fato que o alcance no modo digital necessita de bem menos potência para atingir a mesma área de cobertura, o que provocaria enorme economia de energia. No entanto, isso não quer dizer que haja sinais de que o atual governo pretenda se empenhar pela implantação do rádio digital.

Da mesma forma, a Rádio Nacional AM de Brasília tem previsão de compra de um equipamento de 100 kW para operação noturna, mas a sua licença de operação prevê a potência de 600 kW. Essa força toda era usada nos anos 70, quando, à noite, a rádio era captada em todo o país. Mas problemas técnicos e falta de peças de reposição foram precarizando os transmissores. A operação diurna é e sempre foi de 50 kW. Essa é uma parte da história.

Existe outro processo importante a ser lembrado. Há menos de três meses, em 21 de maio de 2020, a EBC foi qualificada para o programa de privatizações do governo. O Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) da presidência da República determinou a realização de estudos e a avaliação de alternativas de parcerias da EBC com a iniciativa privada, além de propor ganhos de eficiência e resultados para a empresa a fim de garantir a sua sustentabilidade econômica. O prazo para conclusão dos trabalhos é de seis meses, prorrogáveis pelo mesmo período.

Irá a EBC investir agora para logo em seguida ser privatizada? Só a idéia de privatizar a comunicação pública ou estatal já é absurda o suficiente. Mas a dúvida sincera que surge é: estão melhorando o produto para torná-lo mais atraente a possíveis investidores?

A Rádio Nacional já teve emissoras em diversos estados do Norte e Nordeste, mas a então Radiobrás se desfez das rádios durante o governo do presidente José Sarney. Canais do Rio e São Paulo também foram abandonados.

A implantação do rádio digital vem sendo debatida no Brasil desde os anos 1990. Enquanto a TV começou a ser digitalizada em 2008, para o rádio, após alguns testes mal feitos por volta de 2006, não houve escolha por nenhum padrão. Em vez de digitalizar o rádio, uma concessão foi feita ao setor em 2013, com o início do processo de migração das emissoras AM para o FM. A medida era reivindicada fortemente pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). Na época, o ministro das Comunicações do governo Dilma era Paulo Bernardo, que avalizou o processo.

Não é demais recordar que a Constituição prevê a complementariedade entre os sistemas privado, estatal e público de radiodifusão. E a comunicação pública e muito menos a estatal têm o lucro como finalidade. Atender os povos do interior da Amazônia com uma rádio, por exemplo, não traz lucro, mas é de grande interesse para, no mínimo, 14 milhões de ribeirinhos. Para muitos deles, a onda curta da Rádio Nacional da Amazônia é o único meio de comunicação disponível.

A EBC foi criada em 2008, durante o governo Lula, incorporando os patrimônios, concessões e pessoal da Radiobrás (TVs Nacional de Brasília e São Luís, rádios Nacional do Rio, Brasília, Amazônia e Tabatinga, Agência Brasil e Radioagência Nacional), TVE do Rio e rádios MEC do Rio e de Brasília.

Na época, a intenção do governo Lula era, dando vida ao texto constitucional, tornar a EBC o embrião da comunicação pública no Brasil, com a participação da sociedade nas diretrizes das programações, organização de rede, entre outras iniciativas. Isto estava sendo feito. O foco era o cidadão.

No entanto, ao assumir a presidência, Michel Temer acabou com o conselho curador que ajudava a EBC a desempenhar a comunicação pública. Sem mencionar a absurda destituição do então presidente da empresa, Ricardo Melo, que tinha direito legítimo de seguir ocupando o cargo. De lá para cá, as coisas só pioraram. Radiodifusão estatal e pública voltaram a se misturar.

(Na foto, a torre da Rádio Nacional AM 980 de Brasília)

Transmissores a serem comprados pela EBC:

Emissoras já em funcionamento

  • Novo transmissor de 40 kW para a Nacional FM de Brasília
  • Dois novos transmissores de 100 kW em ondas curtas cada para a Rádio Nacional da Amazônia
  • Novo transmissor AM de 100 kW para a operação noturna da Rádio Nacional AM de Brasília.
  • Novo transmissor de 40 kW para a MEC FM do Rio
  • Novo transmissor de 10kW para a Rádio Nacional do Alto Solimões

Novas emissoras

  • FM de 35 kW no Rio
  • FM de 12 kW para a Rádio Nacional em São Luís
  • FM de 5 kW para a Região Norte
  • FM de 3 kW para a Região Nordeste
  • FM de 3 kW para a Região Centro-Oeste
  • FM de 30 kW para a Região Sudeste
  • FM de 20 kW para a Região SulNACIONAL AM 980
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