Arquivo | setembro, 2017

Ribeirinhos e indígenas repudiam desativação da Rádio Nacional da Amazônia

3 set

CARTA_RNAPara quem mora na cidade, é difícil imaginar viver sem ser bombardeado por novas informações a cada segundo. No entanto, em uma vasta região do país, a Amazônia, há populações que vivem isoladas, sem telefone e internet. São os povos ribeirinhos e aldeias indígenas que, somados, alcançam uma respeitável população de seis milhões de habitantes.

 Até pouco tempo, o principal veículo de comunicação que abastecia esses brasileiros com informações  era a Rádio Nacional da Amazônia, que transmite em ondas curtas direto de Brasília, onde uma equipe de jornalistas, radialistas e técnicos fornece informações voltadas especificamente àquele público. A rádio pertence à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), organização pública que em 2008 sucedeu a antiga estatal Radiobrás.

A Rádio Nacional da Amazônia já vem sofrendo há muitos anos problemas de manutenção, principalmente nos transmissores de ondas curtas nas frequências de 6180 e 11780 kHz, em 49 e 25 metros, respectivamente. A plena capacidade, de 250 kW em cada canal, já estava reduzida para 180 kW há muito tempo. Muitas vezes, um canal saía do ar, mas pelo menos o outro seguia em funcionamento.

No entanto, a situação nunca foi tão grave como agora. Em 20 de março deste ano, há mais de cinco meses, portanto, raios atingiram a subestação que abastece de energia elétrica o Parque do Rodeador, a 50 quilômetros do centro de Brasília, onde estão as antenas voltadas à Região Norte do país. Até agora, nenhuma providência prática foi tomada para reparar os danos. A transmissão foi mantida apenas na internet e via satélite, para quem possui antena parabólica. Mas o povo do interior da Amazônia se liga mesmo na rádio é por meio do velho rádio de pilhas. 

Os ouvintes, sentindo-se abandonados, começaram a reclamar nos programas em que há a participação ao vivo por telefone. Em maio, uma manifestação de repúdio à desativação da emissora foi enviada por 15 lideranças de ribeirinhos e indígenas à direção da EBC, com cópias à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República e à equipe da rádio. (Veja a reprodução acima.) No entanto, a direção da EBC permanece muda sobre o assunto.

Confira a lista de entidades cujas lideranças assinaram a carta à EBC
  • Associação de Moradores da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio
  • Associação de Moradores da Reserva Extrativista Rio Iriri
  • Conselho Ribeirinho de Belo Monte – Altamira
  • Associação Indígena Pyjahyry Xipaya
  • Associação Indígena Tukaya Etnia Xypaya
  • Associação Sementes da Floresta
  • Povo Arara da Cachoeira Seca
  • Povo Xikrin do Bacajá
  • Povo Kuruaya
  • Parakanã da Terra Indígena Apyterewa
  • Associação Remanescente de Quilombolas de Oriximiná
  • Associação para o Desenvolvimento da Agricultura Familiar do Alto Xingu
  • Cooperativa Alternativa Mista dos Pequenos Produtores do Alto Xingu
  • Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola
  • Instituto Kabu (Povo Kayapó Mekrangnoti)
  • Associação Floresta Protegida (Povo Kayapó Terra Indígena Kayapó)

Seis milhões de brasileiros há 5 meses sem o seu principal meio de comunicação

3 set

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A Rádio Nacional da Amazônia completa 40 anos nesta sexta-feira (1º/09). Seria motivo de festa, não fosse um detalhe fundamental. A emissora está fora do ar desde 20 de março passado. Pelo menos 6 milhões de ribeirinhos dos estados da Região Norte, além de fiéis ouvintes de outras regiões, principalmente do Nordeste e Centro-Oeste, estão ao desamparo no seu direito ao livre acesso à informação. São 6 milhões de brasileiros que estão há cinco meses sem o seu principal meio de comunicação. E a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), responsável pela rádio, não mostrou até agora o empenho necessário para resolver o problema.

Naquela noite de temporal, um raio atingiu em cheio a subestação que alimentava os dois transmissores de ondas curtas que até então operavam cada um com 180 kW, em 49 e 25 metros, Os transmissores ficam a 50 quilômetros de Brasília. Um cone de luz verde intensa subiu a cerca de 20 quilômetros de altura e pode ser visto durante dois segundos, por exemplo, na Asa Norte, na região central de Brasília. E a rádio se calou. A Agência Brasil, da EBC, laconicamente, registrou o ocorrido quatro dias depois. Nenhuma outra manifestação foi obtida da empresa.

Uma das primeiras reações do público ouvinte foi recebida pela EBC na forma de um abaixo-assinado, enviado à direção da emissora por 15 caciques de aldeias da Amazônia. No documento, é manifestado o repúdio dos indígenas à desativação da emissora. Na Amazônia, a população que mora à beira dos rios não tem fácil acesso à internet para, como se faz nas cidades, ouvir rádio em um celular, por exemplo.

Outras queixas vieram no ar, na própria emissora, em programas que contam com a participação dos ouvintes. Alguns chegaram a se oferecer para colaborar no pagamento do conserto, avaliado extraoficialmente em R$ 1 milhão. A Rádio Nacional da Amazônia mantém sua programação via streaming na internet. Ela também pode ser sintonizada por parabólicas. Mas a maioria dos ouvintes dispõe apenas dos tradicionais rádios de pilha. Tristeza e frustração é também o sentimento que toma conta dos funcionários.

História – Antes da criação da Rádio Nacional da Amazônia propriamente dita, em 1º de setembro de 1977, desde Médici, em 1973, o governo militar brasileiro mostrava sua preocupação com transmissões “alienígenas” (veja trecho de documento abaixo) vindas de países comunistas. A resposta seria a instalação do Sistema de Radiodifusão em Alta Potência, precursor do que hoje é a Rádio Nacional da Amazônia.

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