A notícia é que Trump desmantelou a Voz da América. Mas há sinais de ocupação

Em dois dias de mandato, Donald Trump deixou claro. Seria rápido e muito mais radical na segunda passagem pela Casa Branca. Aparentemente, sem pensar nas consequências. Qualquer problema, negocia-se depois. Intenções de tomada de territórios de países estrangeiros mostram o tamanho da ousadia. E o recém criado Departamento de Eficiência Governamental (DOGE na sigla em inglês), chefiado por Elon Musk, principal patrocinador da eleição do republicano, começou uma guerra aos servidores públicos e a qualquer iniciativa de apoio a questões de igualdade e inclusão, palavras agora proibidas.

Dois meses depois, a vítima foi a octagenária Voice of America (VOA) emissora de rádio e portal de notícias para propaganda dos Estados Unidos no exterior. Cerca de 1.300 trabalhadores foram demitidos da Voz da América no sábado (15.03.2025). Ainda não se sabe o que será feito de sua estrutura. Mas meia dúzia de funcionários seguem ativos. Isso pode ser encarado como normal para o encaminhamento de questões burocráticas, mas também pode ser um sinal de que a solução será outra. Outro detalhe é que radioescutas reportam a ausência de sinal da emissora, mas uma transmissão online em inglês segue no ar. A programação jornalística foi substituída por música pop, mas está mantida uma síntese de notícias de cinco minutos de duração de hora em hora e gravações de aulas de inglês.

No entanto, o mais intrigante sinal é que, na lei, a missão da agência que controla a VOA, a USAGM (Agência dos EUA para a Mídia Global) é “informar, envolver e conectar pessoas ao redor do mundo em apoio à liberdade e à democracia”. Mas atenção: o presidente ditou uma nova redação para a missão da USAGM: “apresentar de forma clara e eficaz as políticas do governo Trump ao redor do mundo”. Sai a palavra democracia. Entra a menção a Trump. Na lei. É o que está em um memorando interno publicado no início do mês, informou a CNN. Se a intenção fosse fechar, qual o sentido de ordenar um novo texto?

Pode ser entendido que não haverá uma paralisação total das atividades, mas elas serão adaptadas aos novos tempos tecnológicos da comunicação. Uma pista: no site do DOGE, em qualquer local que se clique, o internauta é direcionado à rede X, de Elon Musk.

E, pior, se formos ao pé da letra das palavras ditadas por Trump, pode-se ler que ele pretende se eternizar no poder. Lembrando: ele determinou que a missão da USAGM deve ser “apresentar de forma clara e eficaz as políticas do governo Trump ao redor do mundo”. É exagero imaginar que ele não pretende deixar o Salão Oval tão cedo? Para quem chega falando em anexar o Canadá e tomar a Groenlândia, creio que não.

A VOA transmite desde 1942 em ondas curtas com alcance mundial. Foi criada para se opor à propaganda nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Atualmente, estima-se que alcançava um público de 360 milhões de pessoas em conteúdos em 50 línguas.

Junto com a Voz da América, foram atingidas as rádios Free Europe, fundada em 1949 e destinada ao Leste Europeu, com quase 500 empregados; a Free Asia, voltada principalmente ao público chinês; a Rádio Marti, de propaganda anticubana (essa no bojo da derrocada da USAID); e a Middle East Broadcasting Networks, para o Oriente Médio. Segundo Trump e Musk, as emissoras custavam US$ 1 bilhão por ano e nada faziam além de propaganda radical de esquerda…

O ex-diretor da VOA, Michael Abramowitz, lamentou ver a organização que dirigia ser chamada de esquerdista, “enquanto os adversários da América, como Irã, China e Rússia, estão investindo bilhões de dólares na criação de narrativas falsas para desacreditar os Estados Unidos”, publicou a BBC.

Por enquanto, China e Rússia sorriem satisfeitas. Noticiando o episódio, o jornal chinês Global Times chamou a VOA de “uma fábrica de mentiras”. Para os chineses, a Voz da América foi “jogada fora como um trapo imundo” pelo próprio governo estadunidense. Na Rússia a reação é a mesma. Segundo o jornal inglês Independent, Margarita Simonyan, editora da emissora estatal russa RT, saudou a “incrível decisão do senhor Trump. Hoje é feriado para mim e meus colegas da RT e da Sputnik. Esta é uma decisão incrível do Trump!” Simonyan acusou os veículos de mídia financiados pelos Estados Unidos de espalhar notícias falsas e fazer lavagem cerebral nos russos. “Não conseguimos fechá-los, infelizmente, mas a América fez isso sozinha”, disse ela no talk show semanal da RT.

A EBC num cenário eleitoral pessimista em 2026

A extrema direita brasileira tem em Trump o modelo a ser copiado. Se voltarem ao poder na próxima eleição presidencial, é certo que a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) será uma das vítimas. Desta vez, com muito mais radicalidade. Na criação da EBC, em 2008, foram pensados mecanismos para garantir sua independência. No entanto, foram frágeis e ineficazes. Assim que Michel Temer golpeou Dilma Rousseff, foi também derrubada a presidência da EBC, que tinha um mandato em vigor, e destituído o Conselho Curador, responsável por garantir a participação da sociedade na linha editorial da empresa.

Bolsonaro, quando presidente, tinha na mira a privatização da EBC, que opera a TV Brasil, a Agência Brasil e as emissoras de rádio Nacional e MEC. No entanto, o assunto foi esquecido. Segundo Bolsonaro, a economia para o governo com o fim da EBC seria pequena, pois a maior parte do quadro de funcionários não poderia ser demitida. Daí a usar os meios de comunicação disponíveis na estrutura governamental em proveito próprio foi um passo. Tanto que acabou por tornar Bolsonaro inelegível em decisão do Tribunal Superior Eleitoral por uso indevido dos meios de comunicação.

Se houver uma próxima oportunidade para a extrema direita, uma intervenção sobre a EBC será muito mais radical, mesmo que a direita vença em 2026 com um nome menos troglodita na aparência. A tendência hoje é que seja Tarcísio de Freitas o concorrente. Apesar das furiosas e insólitas marteladas em um leilão na Bolsa de Valores quando ministro de Bolsonaro, para o eleitor que não o conhece, Tarcísio vai tentar passar a imagem de um equilibrado empreendedor civilizado. Para isso, terá o apoio fiel da mídia corporativa e da Faria Lima. Tarcísio vestiu o boné do Make America Great Again. Se vencer, haverá desmantelo ou ocupação sem piedade, à moda Trump.

Lucio Haeser

Reprodução condicionada à citação da fonte radiolab.blog.br/Lucio Haeser

Adeus às BBCs. Foi ótimo enquanto durou

Das dezenas de emissoras de rádio da British Broadcasting Corporation atualmente disponíveis online, somente duas vão permanecer disponíveis para escuta fora do Reino Unido.

Assim que instalei internet em casa, há quase 30 anos, comecei a escutar rádios online. Era algo que desejava muito e tinha me motivado a comprar um novo computador capaz de me conectar à rede. Uma das primeiras foi a BBC Radio 2, emissora do grupo de comunicação do Reino Unido. E o programa, que ainda escuto quase todos os sábados pela manhã, foi o Pick of the Pops. São duas horas de reprodução de paradas de sucessos musicais de décadas passadas.

Muitos outros programas, melhores e muito mais interessantes, pude acompanhar ao longo dessas décadas, principalmente nas rádios 1 (pop), 3 (clássicos e experimental, o programa Late Junction é incrível), 4 (a melhor de todas, com muita informação e dramaturgia), 6 e na Rádio London, a rádio local da BBC para a capital.

Dezenas de outras opções eram oferecidas e, eventualmente, eu fazia escuta da BBC Scotland (adoro o sotaque escocês), Wales, Cymru, Nan Gàydheal, e também das BBCs locais de Bristol, Leeds e tantas outras. Cada emissora tinha o próprio site, mas em 2018 os serviços foram centralizados no aplicativo BBC Sounds ou no site de mesmo nome.

Pois bem, essa minha alegria e de milhões de pessoas pelo mundo vai acabar em poucos dias. A BBC decidiu, depois de tanto tempo, cortar o acesso a essas rádios a quem vive fora do Reino Unido. Voltamos à era pré-internet. Cidadãos britânicos que vivem no exterior serão a exceção. Devem ser autorizados a usar um VPN ou outra solução tecnológica.

O motivo exposto no site da BBC é seguinte. “BBC Sounds é um serviço financiado por taxa de licença do Reino Unido. Para oferecer melhor valor para nossos ouvintes do Reino Unido, o BBC Sounds será reposicionado e disponibilizado exclusivamente para o público do Reino Unido. A BBC Studios é uma subsidiária comercial da BBC e está focada em levar nosso jornalismo e narrativa confiáveis ​​e de classe mundial para o público internacional. Isso inclui conteúdo de áudio da BBC no bbc.com e no aplicativo da BBC, que será focado para ouvintes internacionais.” Mais ou menos como: o povo aqui é que paga, porque vocês vão ouvir de graça? Brincadeira à parte, mais do que isso, o fato é que em 2018 a BBC perdeu seu caráter de comunicação estritamente pública e passou a visar o lucro. *Mais sobre BBC Studios ao fim do texto.

No Reino Unido, todas as residências com um aparelho de TV devem pagar uma taxa anual de 169,50 libras (pessoas cegas têm desconto de 50%). Convertido ao real em março de 2025, equivale a cerca de R$ 1.250 ao ano. A chamada licença de televisão deve ser paga pela recepção ao vivo, seja pela tradicional transmissão por antena, cabo, satélite ou via internet.

O dinheiro arrecadado representa 75% dos recursos investidos pela BBC em rádio, TV e internet. Em 2023, foi levantado pelo imposto o equivalente a pouco mais de R$ 30 bilhões. A BBC é uma operação gigantesca. Para evitar a evasão, existe fiscalização, inclusive de escuta na proximidade de residências não pagantes, para tentar verificar se, de fato, não há um aparelho de TV ligado. As rádios da BBC são 100% livres de comerciais.

Para o público internacional, nem tudo está perdido. No final da explicação, a BBC informa que no site bbc.com ou no novo aplicativo BBC estão disponíveis conteúdos em áudio. Das dezenas de opções de rádio ao vivo que tínhamos, restam duas. Menos mal, as mais importantes: BBC Radio 4 e BBC World Service. Essa ainda pode ser captada em aparelhos de rádio com ondas curtas. As rádios da BBC transmitem no tradicional FM analógico, DAB (rádio digital), algumas poucas em AM, e online. A Radio 4 é uma das melhores rádios que já ouvi e, de longe, a emissora que mais tempo fico escutando.

Você pode ligar a Radio 4 em um aparelho estéreo com caixas de som devidamente separadas e sentir-se em um palco de um teatro para acompanhar uma dramatização enriquecida por efeitos sonoros perfeitos que lhe deixam no meio da cena. Claro, o aparelho pode ser menor e estar em cima da geladeira enquanto se lava a louça. O prazer não é muito menor.

A Radio 4 é essencialmente falada, havendo apenas um programa regular com música: o Desert Island Discs (Discos para uma Ilha Deserta), onde personalidades das mais diversas áreas apontam suas gravações musicais preferidas. Esporadicamente, há um ou outro programa sobre algum músico ou estilo que roda gravações musicais.

Segundo a BBC, a restrição adotada para o exterior – evitando apenas as degolas da Radio 4 e da World Service – se deve muito ao fato de as outras rádios terem grande peso de programação musical, o que gera uma enorme questão relativa aos direitos autorais. ”Devido a limitações de direitos, nem todo o conteúdo da BBC pode ser disponibilizado para usuários internacionais. Isso inclui estações de rádio de música da BBC, bem como alguns podcasts.” Até podemos entender, mas, depois de 30 anos, ficamos mal acostumados.

Além dessas duas opções de streamings que reproduzem as duas emissoras citadas, o ouvinte além-mar (overseas, como os britânicos se referem ao “resto” do planeta) terá uma enorme oferta de podcasts novos e em arquivo. Bem, tudo certo com ouvir podcasts, mas ainda não desapeguei (talvez isso nunca aconteça) de ouvir rádio tendo a sensação de que muitas outras pessoas estão escutando o mesmo que eu simultaneamente. Aprecio muito essa sensação. Sem falar que, de hora em hora, em todas as rádios da BBC, temos sempre dois a cinco minutos de atualização da síntese das últimas notícias, o que sempre nos coloca em contato com o planeta em andamento. Mas sei que o mundo não é imutável, claro.

Fico triste por não ter mais a opção de curtir o Late Junction, na Radio 3, ou o Pick of the Pops, na Radio 2, entre tantas outras belas produções. Aquela BBC que conheci pelas ondas curtas do Serviço Brasileiro em 1968 e a qual visitei em 1996 não existe mais. Agora eles não podem mais se contentar apenas com os R$ 30 bilhões pagos pelo público, precisam de lucro. A propósito, a taxa anual paga pelo cidadão fazia parte de um contexto bem diferente, onde a BBC não buscava o lucro. Como se justifica isso agora? A ver.

Existem outras ótimas opções de rádio online e é a elas que sempre vou recorrer. Muita coisa mudou e/ou se perdeu na internet desde o seu início. E essa é, para mim, uma mudança que representa o fim de uma era.

*Sobre a BBC Studios, seguem trechos do que consta na Wikipedia:

BBC Studios é uma empresa britânica de televisão e distribuição de televisão. É uma produtora comercial da BBC, sendo uma junção de departamentos de produção internos da antiga divisão da BBC Television, sendo produzido Comédia, Drama, Entretenimento e Música.

O estabelecimento formal da BBC Studios como entidade comercial ocorreu em abril de 2017. Em abril de 2018, a BBC Studios incluiu a divisão de distribuição internacional existente da BBC, BBC Worldwide, para torná-lo um distribuidor e produtor de programas alinhados com outros grandes conglomerados de estúdios multinacionais.

BBC Studios teve empresa registrada em 27 de Fevereiro de 2015. Em setembro de 2015, o diretor geral da BBC, Tony Hall, anunciou uma proposta para dividir as unidades de produção internas da BBC para programação de televisão não noticiosa em uma separada. A divisão da BBC Studios, que eventualmente, com a aprovação do BBC Trust como parte da próxima revisão do estatuto da BBC, seria gerada como uma subsidiária da BBC com fins lucrativos. Esta proposta permitiria que as unidades da BBC produzissem programas para outras emissoras e canais digitais como a distribuição da BBC Worldwide, além das propriedades públicas da BBC.

Lucio Haeser

Reprodução autorizada desde que citada a fonte: radiolab.blog.br/Lucio Haeser

A tragédia gaúcha e a necessidade de avançar ao rádio digital

Texto e foto de Lucio Haeser

Medo. Abatimento. Angústia. Desespero. Estes são alguns dos sentimentos dos gaúchos nas últimas semanas, desde que o estado foi atingido pela maior catástrofe climática da história, neste interminável maio de 2024. Diferente de outras enchentes, que causam estragos e vítimas, mas passam rápido, desta vez o sofrimento é bem mais prolongado e os horizontes de recuperação ainda são incertos.

Nestes dias de prolongada falta de energia elétrica, computadores são inúteis, o sinal do celular é difícil, ou até impossível em muitos momentos, carregar o telefone é tarefa ainda mais ingrata. Acender velas e lanternas é a solução para trazer alguma luz a centenas de milhares de pessoas. Para muitos, como eu, semanas se passaram sem eletricidade.

Com a população acostumada a ter o imediatismo da comunicação pelos celulares, muitas vezes recheada de fake news, só agora muitos se deram conta que, numa situação extrema, causada por mudanças climáticas que terão seus efeitos cada vez mais frequentes, já não possuíam um antigo aliado: o radinho de pilha. Sim, nos últimos anos, toda a responsabilidade da comunicação foi jogada para cima da internet e do telefone celular. Um grande erro. Por mais poderoso que seja um meio, não se pode colocar todos os ovos em apenas um cesto. O Estado precisa garantir um backup de comunicação de alcance nacional que seja independente da internet.

No Rio Grande do Sul alagado, houve uma corrida em busca dos aparelhos de rádio esquecidos em algum canto da casa e campanhas de doações de receptores foram realizadas. Claro, todos querem saber quando a luz ou a água podem voltar. Vai chover mais? O socorro virá? O que os governos e voluntários estão fazendo? Onde buscar ajuda? Em quais ruas e estradas é possível trafegar? Como obter os auxílios emergenciais oferecidos pelo Estado?

Tudo isso está sendo respondido por emissoras de rádio de todo o Rio Grande do Sul em coberturas intensas. E a elas veio se juntar a Rádio Nacional da Amazônia. Solidária, a emissora da EBC direcionou suas potentes antenas para o Sul e espaços específicos foram abertos na programação, normalmente direcionada ao Norte. É claro que a resposta da emissora em ondas curtas tem as suas limitações, sejam técnicas, pela qualidade do som nem sempre em ótimas condições; ou de quantidade de pessoal da equipe jornalística. Mas é uma atitude muito importante num momento em que qualquer ajuda é bem-vinda.

Nas últimas décadas, com a solução da comunicação mundial pela internet, muitas emissões nacionais e internacionais no rádio de ondas curtas deixaram de ser feitas e, em consequência, a maioria dos receptores deixou de contar com essas frequências. Mesmo assim, participando de grupos de radioescutas em redes sociais, percebo uma grande popularização deste público, de pessoas interessadas em ouvir rádio e, em especial, captar sinais de longas distâncias.

Há 20 anos, esses grupos de radioescutas – ainda na era do e-mail – eram integrados por uma ou duas centenas de pessoas de maior poder aquisitivo, que podiam comprar receptores de alta qualidade e instalar antenas que requerem material especializado e espaço em suas casas. Hoje, vemos dezenas de milhares de participantes, com seus rádios baratos exibindo captações da Nacional da Amazônia, da Inconfidência (MG), da Cultura Brasil (SP), esta última em onda média, e outras pelo Brasil afora.

A relação do rádio com a tragédia gaúcha nos leva a pensar mais adiante. Nos mostra a necessidade urgente de inovar o meio rádio, que continua analógico, no 1.0, ao contrário da TV aberta, que é digital desde 2008 e, anuncia o Ministério das Comunicações, caminha para o 3.0. O avanço ao rádio digital deve se dar especialmente nas frequências AM em ondas médias, tropicais e curtas, que fazem parte de um espectro eletromagnético abandonado pelos radiodifusores.

O rádio digital deve ser uma solução a ser perseguida pelo Estado brasileiro pois oferece qualidade de áudio comparável ao FM e tremenda economia de energia na transmissão, entre muitas outras vantagens. Onde hoje existe um canal de áudio, o digital pode oferecer três, mais um de dados. Uma universidade que tenha uma emissora pode dedicar um canal à leitura de livros, por exemplo. O rádio digital também tem um sistema de alertas de emergência que é acionado apenas para as áreas atingidas, mesmo que o aparelho esteja desligado. E não se limita à situação meteorológica, mas também a questões de trânsito, como o derramamento de cargas perigosas em uma estrada, por exemplo.

Assisti nestes dias 19 e 20 de maio a parte da Assembleia Geral do DRM, evento anual do consórcio Digital Radio Mondiale. Se eu já era entusiasta e defensor da adoção deste sistema no Brasil, fiquei mais ainda. As possibilidades são imensas, inclusive na educação a distância, devido à transmissão de imagens ao receptor de rádio. Dispensa-se a prioridade a cabos e satélites, que podem atuar de forma complementar. A ampliação da Rede Nacional de Rádio, que inclui muitas universidades, deveria ser feita já pensando na adoção do digital.

Podemos imaginar que este é um horizonte distante. Uma longa jornada ainda precisa ser feita, sem dúvida. Mas há um primeiro passo que pode ser dado sem a necessidade de investimentos, basta apenas vontade de executá-lo. Há em Brasília um transmissor de rádio digital em ondas curtas, do sistema DRM, pronto para ser ligado às potentes antenas da Rádio Nacional da Amazônia. Importante lembrar que em ondas tropicais e curtas o único sistema digital existente é o DRM.

O transmissor, de baixa potência, fabricado por empresa de Porto Alegre, foi adquirido com recursos da UnB em convênio assinado pela universidade, pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e EBC. Tal acordo vinha sendo gestado desde 2010, quando da criação do Sistema Brasileiro do Rádio Digital (SBRD). Transmissões teste vieram a ser realizadas, a muito custo e enfrentando resistências, apenas entre o fim de 2020 e início de 2021 com resultados altamente positivos na emissão, recepção e consumo de energia ínfimo.

Terminado o período de transmissão experimental fixado no convênio, a então diretoria da EBC ordenou a imediata retirada do equipamento de suas dependências do Parque de Transmissões do Rodeador, em Brasília. Também desligou um dos seus servidores, um engenheiro que entende a importância do rádio digital e dava suporte à iniciativa.

Esse transmissor usado no teste está ocioso desde então, mas pode muito bem voltar a ser ligado e ser uma bela amostra do que nos aguarda com o rádio digital. Que se façam as tratativas necessárias entre os órgãos envolvidos. Alguns poderão apontar esta ou aquela dificuldade. Nada que não possa ser superado. Basta ter vontade. Tendo em vista os benefícios que podem ser alcançados, é necessário ter esta vontade.

Certamente também virá a pergunta: de que adianta transmitir rádio digital, quem poderá ouvi-lo? Ora, o que vem primeiro? Se não houver transmissão é claro que nunca haverá recepção. Basta lembrar um exemplo, pois há vários. Quando a TV foi inaugurada no Brasil, quantos receptores havia? Algumas dezenas, comprados pelo próprio emissor. Garanto que hoje há muito mais receptores DRM no Brasil do que o número de aparelhos de TV em 1950, mesmo levando em consideração o crescimento populacional.

E mais: receptores DRM baratos, que podem ser energizados a manivela, ou seja, dispensam até o uso de pilhas, estão chegando ao mercado. Nada mais apropriado ao se pensar em momentos de falta de eletricidade. No início de 2023, representantes de empresa do consórcio DRM esteve no Brasil em busca de fabricantes nacionais. Receptores DRM não excluem as atuais transmissões analógicas, seja em AM ou FM. Portanto, não se trata de substituir o atual sistema de radiodifusão analógico. A questão é acrescentar uma outra possibilidade concreta.

Precisamos garantir comunicação gratuita e de livre acesso em todo o território nacional. Das catástrofes, embora todo o sofrimento, geralmente emergem soluções inovadoras para a melhoria da qualidade de vida. Que, no Brasil, o rádio digital seja uma delas.

Jorge Antunes: 60 anos de uma trajetória musical desbravadora

Música eletrônica surge no Brasil em 1961 com a Pequena Peça em Mi Bequadro e Harmônicos

A gravação de Valsa Sideral, de Jorge Antunes, primeira no Brasil a utilizar exclusivamente instrumentos eletrônicos, certamente será celebrada em 2022, quando completará 60 anos. Mas como o ano de 2021 vai chegando ao fim e não vi ninguém recordando os 60 anos de sua composição eletrônica pioneira – Pequena Peça em Mi Bequadro e Harmônicos – me motivo a fazer essa lembrança. (Não afirmo que ninguém tenha lembrado do fato, eu apenas não vi.)

Lembre o ano de 1961 (se você não estava vivo, deve ter lido e ter informações a respeito). Imagine o cenário musical, cultural e político etc. Agora ouça o que fez Jorge Antunes, então com 19 anos, na sala de sua casa na Rua Orestes, região portuária do Rio de Janeiro, com instrumentos eletrônicos por ele produzidos e equipamentos de gravação caseiros. A gravação, feita entre outubro e novembro de 1961, é linda e surpreendente. Há ali um piano, o que faz com que Valsa Sideral seja celebrada como a pioneira em sons exclusivamente eletrônicos.

Não foi um disco, muito menos tocou no rádio, mas o gênio gravou. Foi para o CD apenas em 1993 no disco Jorge Antunes, Musica Eletroacústica – Período do Pioneirismo, publicado pela ABM Digital (Academia Brasileira de Musica).

Pequena Peça em Mi Bequadro e Harmônicos, gravação caseira de Jorge Antunes feita em 1961

O que inspirou Antunes a enveredar por este caminho foi o Concerto de Música Eletrônica realizado no Teatro Municipal do Rio no dia 24 de setembro de 1961, poucas semanas antes, portanto, de ele iniciar a sua primeira gravação. Sob a regência do maestro Eleazar de Carvalho, a apresentação teve no programa a composição Kontakte, do alemão Karlheinz Stockhausen, para sons eletrônicos, piano e percussão.

Além de estudante de música, Antunes era radio-técnico desde 1959. Com os conhecimentos de eletrônica, fez seu primeiro instrumento: um gerador de ondas dente-de-serra. E por aí vai uma longa e prolífica história que pode ser conferida em detalhes, por exemplo, no livro Uma Poética Musical Brasileira e Revolucionária, que tem o próprio maestro como organizador. Antunes não se ateve somente ao eletrônico. Ele tem uma obra vasta e altamente premiada e reconhecida internacionalmente. Quem quiser saber mais, pode começar visitando o site http://www.jorgeantunes.com.br.

PS: Para ajudar a contextualizar, seria interessante perguntar: onde estavam Pink Floyd e Kraftwerk, por exemplo, em 1961? Eles nem existiam…

Jorge Antunes na sala de sua casa, no Rio de Janeiro, década de 1960.

Rádio Nacional da Amazônia avança para a transmissão digital DRM com 100 kW

A BT Transmitters, de Porto Alegre, assinou contrato com a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) para a produção de um transmissor de 100 kW no sistema digital DRM. O equipamento será utilizado na frequência de 11.780 kHz na faixa de 25 metros, que é um dos canais de ondas curtas utilizados pela Rádio Nacional da Amazônia desde 1977.

A compra, no valor de R$ 3,5 milhões, é resultado de pregão eletrônico realizado em agosto de 2020, no qual estão previstas aquisições de outros equipamentos para as emissões das rádios públicas da EBC. Agora começa o processo de produção do transmissor. A Nacional da Amazônia realizou, no final do ano passado, testes com a tecnologia DRM usando a potência de apenas 1 kW. Mesmo assim, foram reportadas escutas de diversas regiões do país, América do Norte e Europa. https://radiolab.blog.br/2020/11/25/comeca-transmissao-de-radio-digital-em-onda-curta-no-brasil/

O sistema DRM (Digital Radio Mondiale) proporciona economia de até 80% no consumo de energia elétrica para a transmissão, qualidade de som superior ao FM, além de permitir envio de imagens ao receptor. DRM é um consórcio mundial sobre o qual mais informações podem ser obtidas em drm.org.

Reprodução permitida desde que citado o link: radiolab.blog.br

Antenas da Rádio Nacional da Amazônia, no Parque do Rodeador, em Brasília. Foto: Lucio Haeser

Raymond Murray Schafer 1933 – 2021

Perdemos o inspirador da vertente inicial desse blog, criado em 2010. https://en.wikipedia.org/wiki/R._Murray_Schafer

Há 48 anos, deboche contra militares tirou do ar a Rádio Continental de Porto Alegre

Em 25 de agosto de 1973, a Rádio Continental 1120 AM de Porto Alegre colocou no ar um noticiário que lhe custou uma punição pesada. Foi obrigada a ficar três dias fora do ar. A partir de 1971, sob a direção de Fernando Westphalen, o Judeu, a emissora adotou um tom crítico à ditadura implantada em 1964. Mas naquela manhã de sábado o redator Oscar Flores pisou mais fundo.

Era dia de abertura da 36ª Expointer, na vizinha cidade de Esteio, e, como era o Dia do Soldado, da entrega da Medalha do Pacificador, em frente ao Colégio Militar, no Parque da Redenção, não muito distante da sede da rádio. A Medalha do Pacificador é a mais alta honraria concedida pelo Exército brasileiro.

A redação do noticiário 1120 é Notícia naquela manhã cabia ao jovem Oscar Flores, 23 anos. O texto da rádio era descontraído e cheio de gírias típicas da juventude portoalegrense da época. Como é costume, o locutor sempre lê o texto antes de levá-lo ao ar. Foi o que fez Wladimir Oliveira que, surpreso, questionou Oscar: “Tu vais colocar isso aqui no ar?”. O redator não teve dúvida: “Vou.”

E assim foi ao ar.

Tratar a cerimônia da Medalha do Pacificador como “entrega de latinhas a alguns militares” entornou o caldo. Foi aberto processo no Ministério da Justiça e, quase dois meses depois, em 24 de outubro de 1973, a rádio foi notificada da punição: 72 horas fora do ar, o que foi cumprido imediatamente.

A Rádio Continental passou a receber atenção especial da Censura e de movimentos anticomunistas, inclusive com ameaças à integridade física de seus diretores e funcionários. Há muitos outros detalhes interessantes sobre o episódio, mas, por hoje, fica esse registro. O caso também está narrado no livro Continental, a Rádio Rebelde de Roberto Marinho, da Editora Insular. Ressalto que o livro reproduziu em parte o texto levado ao ar, mas essa é a primeira vez que ele é exibido na íntegra, isso graças à generosidade do pesquisador Emílio Pacheco, que o localizou.

Gravações originais da Continental 1120 pode ser ouvidas na web rádio www.continental1120.com.

A resistência na Rádio Nacional de Brasília foi até a consumação do golpe, na madrugada de 2 de abril

Após os acontecimentos narrados no post anterior, a madrugada de 1º de abril de 1964 na Rádio Nacional do Rio de Janeiro teve uma sequência discursos e entrevistas contra o golpe em andamento. Foram ministros, deputados, sindicalistas e estudantes. Também a Rádio Nacional de Brasília fazia desde a noite de 31 de março uma programação de resistência baseada na escuta que fazia da coirmã do Rio. Ambas as emissoras, vale recordar, eram vozes oficiais dos governos brasileiros desde os anos 1940.

Jango, que na noite de 31 de março para 1º de abril estava no Rio de Janeiro, abandona a cidade em direção a Brasília às 12h45. À tarde, com a situação fragilizada, e com o golpe já sendo comemorado nas ruas do Rio, forças do Exército tomaram os transmissores da Nacional em Parada de Lucas às 15h45. É quando se dá a debandada da resistência nos estúdios da rádio. Não sem antes providenciar na retirada de peças estratégicas para o retorno da emissora ao ar. Foram retirados fusíveis, válvulas e o cristal do transmissor em FM que fazia a ligação do estúdio com a torre em Parada de Lucas.

Na Rádio Nacional de Brasília a programação seguia normal naquele 31 de março. Durante o dia, o diretor geral, Edmo do Vale, procurava informações, inclusive no Palácio da Alvorada. A situação mudou às 22h, quando, segundo o relatório da comissão de sindicância, seis pessoas oriundas do Gabinete Civil da Presidência foram encaminhadas para a rádio por Darcy Ribeiro, ministro-chefe da Casa Civil de Jango.

A missão era dirigir e auxiliar o trabalho da Divisão de Jornalismo. “Foi organizada uma equipe de trabalho para a organização de notas para divulgação. A ordem recebida foi para entrarem na escuta da Rádio Nacional do Rio e gravarem seus pronunciamentos para divulgação. … Esse trabalho iniciado cerca das 22h30 de 31 de março prolongou-se pelo dia 1º até a madrugada de 2, quando a emissora saiu do ar.” No entanto, a redação de notas e a escuta da Nacional do Rio logo tornou-se desnecessária pois diversos deputados, sindicalistas e outros defensores de Jango chegaram ao estúdio onde formaram mesa redonda para tentar rechaçar o golpe.

A ação foi fervilhante na madrugada toda. Planejou-se um comício no Teatro Nacional com a cobertura ao vivo pela Rádio Nacional para a manhã e tarde daquele dia. Conforme o relatório, o movimento na rádio começou a diminuir na tarde de 1º de abril. Diz o documento: “A cobertura do comício processou-se como um dos fatos marcantes da atuação da rádio. … Por volta das 19h, Darcy Ribeiro compareceu pessoalmente à rádio tendo nesse instante entrado no ar a TV (Nacional), que também passou a fazer cobertura dos pronunciamentos, iniciando pelo de Darcy Ribeiro.”

“Com o afastamento de João Goulart de Brasília, os pronunciamentos foram diminuindo e, na madrugada de 2 de abril, a emissora saiu do ar, pelo que consta, por ordem do Gabinete Militar da Presidência da República.”

Do relatório constam falas de Jango na Nacional de Brasília, em 1º de abril, das 23h29 às 23h55 e das 24h às 0h06 (já entrando no dia 2 de abril), sendo certamente material gravado, pois ele havia deixado Brasília pouco antes, às 22h30, em direção a Porto Alegre.

A saída do ar da Nacional de Brasília, na madrugada do dia 2, ocorreu quase simultaneamente à oficialização do golpe, com o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, declarando vaga a presidência da República e empossando Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara, que, de fato, nunca chegou a governar. A ditadura de 1964 estava concretizada.

O material que baseia esse relato foi obtido no Arquivo Nacional de Brasília. Em outro momento, volto a publicar mais material, inclusive com as consequências a dezenas de profissionais afastados das emissoras sob a acusação de atividades comunistas.