A resistência ao Golpe de 1964 na Rádio Nacional do Rio

Relatório confidencial, agora revelado com exclusividade por RadioLab, mostra registros oficiais do Serviço Nacional de Informações (SNI) sobre a programação e fatos ocorridos nas rádios Nacional do Rio e de Brasília no processo de deposição do presidente João Goulart

Em 31 de março de 1964, ao saber da movimentação das tropas vindas de Juiz de Fora para iniciar um golpe de Estado, a direção da Rádio Nacional do Rio de Janeiro “passou a transmitir comunicados da presidência da República sobre os acontecimentos e as providências que eram tomadas”. Essa e muitas outras informações estão em relatório do chefe da Superintendência das Empresas Incorporadas ao Patrimônio Nacional (SEIPN), Ovídio Saraiva de Carvalho Neiva, enviado em 10 de junho de 1964 ao ministro da Casa Civil, Luiz Vianna Filho. A SEIPN era a responsável pela Rádio Nacional.

O documento foi fruto do trabalho de Comissão de Sindicância constituída por determinação do Conselho de Segurança Nacional. A comissão foi integrada por quatro majores e um tenente coronel. Os trabalhos foram iniciados em 7 de maio e encerrados em 5 de junho de 1964. Foram ouvidas mais de 300 pessoas e recebidas informações do Conselho de Segurança Nacional e do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) da Guanabara.

O relatório afirma ter ficado “configurado por inúmeros depoimentos que, na Rádio Nacional, funcionava uma célula comunista originária do Departamento de Rádio Teatro”. Mais adiante, constata que “a situação comunizante da Rádio Nacional era feita pela doutrinação direta, aliciamento, correspondência procedente da Tchecoslováquia e Alemanha Oriental (farto material apreendido) enviada a elementos simpatizantes, conformados ou omissos e, o que é mais sério, por intimidação e perseguição”.

Conforme o relato de Carvalho Neiva, “nos dias que precederam a Revolução Democrática (sic), … a Rádio Nacional vinha irradiando notícias facciosas, totalmente devotadas à política governamental do sr. João Goulart, em apoio a todos os movimentos de caráter nitidamente subversivos”. Entre eles, aponta as irradiações ao vivo do Comício da Central do Brasil, em 13 março, quando Jango garantiu a realização de reformas de base, e a reunião com cerca de mil sargentos e subtenentes no Automóvel Club do Brasil, na véspera do golpe, em 30 de março.

No dia 31, fora os comunicados da presidência, a programação da Rádio Nacional do Rio seguia normal. Isso mudou às 20h. Diz o relatório que a partir daquela hora passaram a ser transmitidas “proclamações e pronunciamentos de líderes sindicais, de deputados esquerdistas e tantos outros elementos cujo único cuidado era fomentar a subversão da ordem, a deflagração de greves e incentivar a luta armada. Indivíduos, os mais desclassificados, fizeram uso do microfone da rádio”. Os estúdios na Praça Mauá e os transmissores em Parada de Lucas passaram a ser guardados por soldados do Corpo de Fuzileiros Navais armados com metralhadoras.

Por volta das 23h, o ministro da Justiça, Abelardo Jurema, pede “aos optantes da Polícia Militar para se apresentarem na Avenida Rodrigues Alves”. Já na madrugada de 1º de abril, os corredores da rádio “se encheram de comunistas, pelegos e outros elementos subversivos e a pregação aos microfones desenvolveu-se descontrolada e desenfreadamente, sem registros, só permanecendo como vestígios daquilo que foi levado ao ar as gravações (fitas magnéticas) e pedaços de papel rascunhados pelos coordenadores. Longe demais foi a audácia dos diretores da rádio que, após instalarem a Rede da Legalidade em transmissões muitas vezes em cadeia com a Rádio Mayrink Veiga e outras, culminaram com a criação da Rede Radiofônica Nacional da Legalidade”.

Prossegue amanhã.

Reprodução permitida com citação ao autor, Lucio Haeser, e com o link http://www.radiolab.blog.br

Publicado por Lucio Haeser

Interested in field recordings, electroacustic music and audio documentaries.

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